Fazendo cinema com o Polo Audiovisual Ponto Cine


Gravação do filme "A Promessa"

Durante os meses de realização dos cursos de Direção Audiovisual (DAV) e Interpretação para Produções Audiovisuais (IPA) realizados no Guadalupe Shopping pelo Polo Audiovisual Ponto Cine, os alunos de cada turma foram preparados para incorporar os aprendizados de ambos os cursos na realização de cinco curtas metragens diferentes, que serviriam como uma conclusão dos ensinos transmitidos por meio das aulas com profissionais do mercado. O crescimento e desenvolvimento das aulas e desses trabalhos foi acompanhado pelo blog, por meio de uma série de textos aprofundando os elementos que haviam sido abordados pelos professores: a necessidade de planejar o tempo de filmagem, o uso da estética visual e sonora como formas complementares ao roteiro e a necessidade de sinergia da equipe. A hora de gravar, seria o momento para colocar em prática todo o conhecimento absorvido.


Os cinco filmes foram gravados com uma câmera Black Magic, pesada e profissional, que ajuda a dar um aspecto mais "cinematográfico", diferente de câmeras fotográficas comuns, e tiveram auxílio do professor Antônio Carlos DMC como responsável pela captação do som nos filmes, bem como outros suportes de câmera. Cada curta teve um total de 12 horas de gravação, iniciando às 7:00 da manhã com um café entre a equipe antes da gravação: momento para aliviar a tensão, acomodar todos que chegavam e se alimentar antes do dia longo e corrido de filmagem. Os cinco filmes são em sua maioria, formados pelo contexto do subúrbio, apresentando de uma maneira ou de outra, questões de cunho social pertinentes à seus realizadores, muitas vezes tendo ligação direta com os roteiristas ou diretores.


Gravação do filme "A Promessa"

O primeiro filme a ser gravado foi "A Promessa", dirigido por José Bazílio e com fotografia de Wallace Ribeiro. O filme é um drama familiar situado na véspera de Cosme e Damião, e lida com o conflito de três irmãos que buscam cumprir uma promessa feita pela falecida mãe. Com seu contexto emocional, o filme foi gravado de uma maneira simples, puxando atenção mais para a visceralidade nas interpretações do que em movimentos de câmera ou fotografia elaborada. "A Promessa" se passa quase todo em ambientes internos, onde a vida familiar se desenvolve por meio de brigas e perdões. Entretanto, o filme destaca-se pelo uso de um drone para a captação de imagens aéreas do bairro, operadas pelo diretor de fotografia, e pela presença de crianças no set, o que deu uma aproximação ainda maior com a realidade, e fixou o filme nesse espaço emotivo e altamente relacionável. Mesmo com a dificuldade ao gravar o filme numa locação em frente a uma escola, o grupo estava em sintonia.


Cenas do filme "Du Passinho"

Cenas do filme "Du Passinho"

O segundo filme a ser filmado foi "Du Passinho", dirigido por Pedro Moraes e fotografado por Vanor Correia, que por curiosidade, foi o roteiro mais longo dentre os cinco, mas foi trabalhado e se tornou o mais curto. Nele, o jovem Elias, cria de favela, vive num dilema com sua conservadora mãe e com o relacionamento envolvido pela dança com seu melhor amigo Lucas, irmão do traficante batata. Sendo gravado quase inteiramente em externas, algumas dificuldades se mostraram mais visíveis: clima e a própria vida local como elementos a interferir no decorrer de filmagens. "Du Passinho" não foi o único filme a passar pelas dificuldades de filmar externamente. Nesses cenários, existe um desafio maior na captação de áudio, pois não é possível simplesmente interromper a vida local, de comerciantes e moradores. Os realizadores precisaram dialogar com transeuntes, os quais as vezes eram alçados como figuração. Fazer cinema implica também, em atender a sociedade de forma responsável. O curta é protagonizado por Hiltinho Fantástico, dançarino, coreógrafo e professor de Passinho , dando maior credibilidade as sequências de dança do projeto. Durante as filmagens, dois papagaios apareceram e ficaram gritando no fio do poste: momentos inesperados que o cinema proporciona.


Bastidores do filme "Sabotagem"

Bastidores do filme "Sabotagem"

"Sabotagem" foi o terceiro curta gravado, sendo dirigido por Saulo Eduardo e Fabio Limah e fotografado por Cíntia Lima. O curta difere-se dos outros por abordar menos questões próprias do subúrbio e do contexto urbano; na verdade, seu foco principal é trabalhar em cima do contexto da auto-sabotagem do título através de um contexto lúdico, fantasioso e surrealista. Na trama, um jovem engenheiro decide seguir seu sonho como roteirista, contrariando os desejos de seu pai e causando atritos no relacionamento com seu namorado. Mas quando a personagem de seu texto ganha vida, um sopro de inspiração o incentiva a dar uma nova chance ao seu sonho. "Sabotagem" usou apenas o espaço do Polo Audiovisual Ponto Cine, incluindo as salas onde as aulas eram realizadas e nenhuma externa. Era uma ideia que já estava muito sintetizada na cabeça da equipe desde o início, e onde foi realizado um enorme trabalho de Direção de Arte que evocasse o teor fantasioso e metafórico que o roteiro carrega. O filme marca também a transição no suporte de câmera, de Chris Moraes para Lincoln Santos, que trabalhou como assistente no longa-metragem "Bacurau".


Cenas do filme "Abeni"

Bastidores do filme "Abeni"

"Abeni", quarto filme a ser gravado, foi dirigido por Thiago Câmara de Paula, com fotografia por Mazé Mixo. A história que lida com uma jovem dividida entre abraçar sua herança do Candomblé ou renunciá-la envolve muito da vivência de seus próprios realizadores e também, de membros da comunidade candomblecista do país. Sendo o único curta gravado fora de Guadalupe, em Santíssimo mais especificamente, ele segue preservando a linguagem do subúrbio e da marginalização social, retratada fortemente também pelo papel do crime organizado e da intolerância religiosa, que pode manifestar-se de forma agressiva ou sutil. A maior parte do set consiste em um terreiro no bairro onde as filmagens foram realizadas, e pelos seus temas fortes envolvendo depredações religiosas, diversos rituais tiveram que ser respeitados e levados em consideração durante a filmagem. Isso envolveu o diálogo com as comunidades locais, o que foi facilitado pela existência de membros da religião na equipe que já conheciam esse universo. O terreiro como um todo se mobilizou para que o filme acontecesse: o set encheu-se com membros do local e até Mães e Pais de Santo, que se juntaram afim de finalizar um filme que contava uma história potente sobre luta.



Bastidores do filme "Marta"

O último filme a ser gravado foi "Marta", dirigido por João Garaza e Yana Vieira, com fotografia de Ana Gomes. Abordando o processo judicial aberto por Marta contra seu ex-marido violento e possessivo, Marta se vê praticamente sem saída quando descobre o risco de perder o processo. "Marta" possui algumas cenas externas para ilustrar o subtexto religioso da trama, mas desenvolve-se predominantemente na casa da protagonista. "Marta" aborda a cegueira religiosa e a violência doméstica sob um viés de filme de suspense, apostando mais na tensão do que no drama. Assim como os outros filmes, ele possui sua estética diferenciada e própria, justamente para melhor transpor as palavras do roteiro. Uma cena, por exemplo, foi gravada com a câmera dentro de um carro, que precisou ser empurrado por membros da equipe enquanto os personagens eram acompanhados.


Algo que pode ser tirado como aprendizado de todos esses filmes e da experiência num set de filmagens é a correria. Com apenas um dia de gravação, alunos de curtas diferentes dialogaram entre si, para que ajudassem no filme uns dos outros. É muito comum as coisas não irem de acordo com o que foi planejado anteriormente: a realização de um filme depende de muitos fatores que variam do clima, equipamento e até a vida local do ambiente que servirá de cenário. Isso dificulta a execução de cenas em tempos planejados anteriormente, bem como a re-adaptação de outras. Certas vezes, o que havia sido imaginado antes, não pode mais ser realizado. Naturalmente, realizadores são apegados com suas artes e não gostam de abrir mão de quaisquer elementos, seja por necessidade de tempo ou de imprevistos. Às vezes os filmes são pensados quase como longas, e precisam ser retrabalhados para enxugar excessos e possibilitar sua realização, assim como planos e enquadramentos precisam ser reduzidos ou cortados.


Por isso, cinema é uma arte de planejamento e paciência, feito de detalhes e realizado em conjunto. E os realizadores tiveram a oportunidade de ver seus esforços e mostrá-los ao público quando os filmes foram apresentados na sala de cinema do Ponto Cine no dia 30 de novembro, em uma sessão para membros da equipe e convidados seguida de uma sessão para os familiares dos alunos.


Bastidores do filme "Eu te Mato"

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