Raízes no Subúrbio - A Essência do Polo Audiovisual Ponto Cine

A palavra “subúrbio” é instantaneamente utilizada como um termo pejorativo no Rio de Janeiro. O prefixo “sub”, indica algo ou alguém numa posição abaixo de outro. Entretanto, esse conceito carioca na verdade se difere do resto do mundo e, também, do antigo conceito de subúrbio. Nos países desenvolvidos, o termo é compreendido como uma área voltada para a classe média alta, que busca uma vida confortável na qual, tenham acesso fácil ao centro da cidade. No Rio de Janeiro, por outro lado, o subúrbio se tornou um sinônimo de um lugar voltado, especificamente, para classes mais baixas e pobres, carentes de serviços e com precariedade tecnológica. Entretanto, até a Reforma Pereira Passos no começo do século XX, o conceito carioca de subúrbio englobava bairros hoje considerados “ricos”, como Botafogo, Flamengo e Copacabana, pois era entendido o termo como algo indicativo de áreas distantes do centro. Foi apenas na década de 50, que ocorre a “segregação” da Zona Sul com os “subúrbios” do Rio de Janeiro: estes, ganhando o termo pejorativo após o advento da linha férrea, recebendo a designação de um lugar ultrapassado e antiquado para se morar.


Adailton Medeiros em frente a um conjunto habitacional em Guadalupe Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

Olhando para o vazio cultural e desserviço com o subúrbio carioca, o Polo Audiovisual Ponto Cine nasce, como resultado de uma parceria entre duas iniciativas de sucesso: o Ponto Cine (EPP) e o Ponto Solidário (OSCIP). O primeiro, ofereceu por um tempo uma ferramenta de divulgação, o "Tela Móvel", ou seja, um veículo com uma tela embutida, uma forma de levar o cinema até os cidadãos, incluindo pipoca e um “lanterninha”, que ajudaria o espectador interessado em ir à sala de cinema presente no Guadalupe Shopping. Com o projeto ProSocialCinema, projeto de formação de plateia para o cinema brasileiro que oferece ingressos gratuitos para ONGs e escolas públicas do subúrbio, nasce a sala de cinema. O cinema está ausente na maioria das cidades brasileiras; no entanto, para o diretor do Ponto Cine, Adailton Medeiros, a sétima arte é “um alimento básico, que alimenta a alma das pessoas e fortalece a consciência de um país”. Não à toa, o slogan “Arroz, Feijão e Cinema" é adotado pelo Ponto Cine, trazendo um público virgem, no qual muitos nunca sequer haviam ido a uma sala de cinema, para assistirem filmes a um preço barato e perto de casa. Em paralelo a isso, o Ponto Solidário realizou diversos projetos sociais ligados ao audiovisual e ao subúrbio, como o Cine Literário, que atuou em 42 escolas da Rede Pública e Ongs voltadas para a Educação, com a doação de Kits com 100 títulos de livros da Literatura Brasileira e 100 filmes adaptados desses livros, além de TVs e Blu-ray players.


Além disso, o Ponto Solidário também já atuou com o "Oficine-se": a ideia de criar uma rede alternativa de exibição dentro das escolas. Grande parte dos cinemas do Rio de Janeiro estão localizados no Centro, ou na Zona Sul e filmes brasileiros, especialmente independentes, estão entre os que menos ficam em cartaz devido ao espaço escasso cedido e a falta de divulgação. O projeto durou duas edições, consistindo na realização de oficinas, com aulas teóricas e práticas sobre toda a cadeia produtiva cinematográfica, com foco na capacitação de exibidores e montagem de uma sala de exibição nas escolas e visando provocar o senso crítico desses jovens, tornando-os protagonistas de suas próprias histórias. O "Oficine-se" foi feito em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, onde 33 escolas da rede no interior do estado, participam do projeto. Cada uma indicou um aluno e um professor, e a prioridade foi dada a cidades que não tenham salas de exibição. Com essa oportunidades, criou-se uma chance para produzir e disseminar histórias desses alunos.


Em relação ao famoso "Diálogos com o Cinema", esse projeto vitorioso teve início nas Lonas Culturais, em 1999, precisamente na Lona Cultural Carlos Zéfiro, em Anchieta, numa parceria com o Cinema em Movimento: um dos mais importantes projetos difusores da sétima arte no Brasil. No Ponto Cine, a partir de 2006, tornou-se referência para o mercado cinematográfico, constituindo na exibição de filmes brasileiros inéditos seguidos por debates, às vezes com membros da realização ou então, profissionais de uma área sobre a qual o filme disserte. Nesses eventos, a entrada é franca. Por ele, já passaram nomes como Cacá Diegues, Caetano Veloso, Nelson Pereira dos Santos, Patrícia Pillar, Letícia Sabatella, Matheus Natchergaele, Selton Mello, Caio Blat, entre outros. Nessa linha, o projeto tem como objetivo a alfabetização e educação do olhar e do comportamento através dessas conversas únicas, acreditando na importância de humanização dos encontros, especialmente em uma sala de cinema.

Atores e diretores convidados, frequentemente, não sabem o que vão encontrar, imaginando por vezes algo amador. Entretanto, ao serem surpreendidos pela qualidade da sala, se oferecem para saber como podem ajudar, gerando boca-a-boca e crescimento do nome do Ponto Cine. Quanto ao Polo Audiovisual Ponto Cine, este funciona, como uma espécie de guarda-chuva: o ponto máximo de uma série de cadeias cinematográficas, visando a formação de mão de obra, a produção audiovisual , produção de projetos socioculturais (ou seja, a junção do Ponto Solidário e do Ponto Cine para projetos anteriormente mencionados), exibição (por meio da sala) e distribuição. Portanto, todas as áreas do mercado cinematográfico, e a base de tudo isso está no subúrbio, que trouxe para o Polo, um novo conceito da palavra. O crescimento da marca, que além da primeira sala de cinema digital do Brasil, é também a única da América Latina a receber um selo CarbonFree, tornou o Ponto Cine um Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Rio de Janeiro em 2018, com 16 premiações, dentre elas o Prêmio Faz Diferença, do Jornal O Globo, e tornando-se o maior exibidor de filmes brasileiros do mundo, gerando renda e postos de trabalho para 60 profissionais e 12 estagiários, bem como atingindo uma marca crescente de público, direta e indiretamente.

O subúrbio é a raiz e essência do Polo Audiovisual Ponto Cine. Desde o nascimento dos projetos, a maioria da mão de obra se encontra no subúrbio, enquanto as empresas estão no centro da cidade, fazendo com que elas se desloquem. Ao criar um projeto que gira em torno dessas pessoas, mantendo-as no subúrbio e retendo essa geração de renda, cria-se uma maior margem de lucro, bem como contrapartidas sociais maiores. O crescimento do Ponto Cine permitiu gerar mudanças no bairro. Se antes era comum ver um “atijolamento”, ou seja, prédios em situações precárias, problemas de lixo nas ruas, falta de sinalização e arvores mal cuidadas, em comparação com a Zona Sul onde há maior desenvolvimento urbano, o cenário passa a se tornar mais caprichado quanto mais se aproxima do cinema. Isto aumentou, além do desenvolvimento do bairro, o crescimento do próprio Guadalupe Shopping, com a ocupação dos espaços, antes restritos, para lojas, bem como o aumento de pontos comerciais ao entorno do Ponto Cine. Nesse sentido, os moradores adotaram para si o uso do “Ponto” nos nomes, para atrair clientes, dando um sentimento de pertencimento, uma nova forma de ver o cinema, consciência ecológica, geração de trabalho e aumento na qualidade de vida. O público que vem aqui se sente em casa, pois lhe é dada dignidade e respeito.



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