O Cinema Brasileiro conta as nossas próprias histórias



A trajetória do cinema brasileiro pode ser dividida em épocas de características muito distintas, mas sempre marcadas por semelhanças. A dificuldade de realização, em detrimento da elitização da cadeia produtiva, a falta de incentivo- comumente motivada por razões ideológicas ou censura-, ou simplesmente a aversão do público geral com o cinema nacional ilustram empecilhos na realização dessa forma artística no país. É interessante notar, entretanto, que desde a sua gênese, os cineastas brasileiros buscam usar a mídia como uma forma de disseminar informação e retratar a realidade em transformação do país.


O primeiro filme produzido no Brasil, "Vista da Baía de Guanabara" foi realizado pelo cinegrafista italiano Afonso Segreto, que registrou sua chegada ao país e posteriormente exibiu o curta-metragem em Petrópolis, no ano de 1898. Entretanto, foi só mais tarde que a sétima arte começou a dar passos para se transformar em uma indústria. Com o avanço da energia elétrica, que resultou na possibildade da criação de salas de exibição, São Paulo e Rio de Janeiro se tornaram os principais pólos exibidores e realizadore; uma espécie de monopólio que se arrasta até a atualidade. Se os primeiros filmes produzidos aqui e mundo afora retratavam pedaços do cotidiano, com o surgimento do cinema de gênero, crimes e episódios reais passaram a ser as principais inspirações para as obras audiovisuais brasileiras, quase sempre de caráter documental. Entre elas "O Crime da Mala", lançado em 1928 e inspirado em um caso de repercussão internacional. Nessa época também eram populares os "cine-jornais" com pautas e matérias muitas vezes encomendadas.


Quando Hollywood se estabeleceu como um grande polo audiovisual, os estúdios que começaram a surgir no Brasil buscaram recriar e transportar a estética e narrativas grandiosas para terras tupiniquins, afim de alcançar um maior público que era inundado de produções norte-americanas. Filmes lineares, com finais felizes, canções, romance, comédias e adaptações literárias de clássicos. Mesmo assim, era impossível competir com Hollywood, que simplesmente dominava as salas de exibição; no entanto, diversos artistas foram alçados ao estrelato com as produções da Cinédia, Atlântida e Vera Cruz, como Carmen Miranda, Mazzaroppi e Grande Otelo. Usando temas fáceis e de apelo popular como o Carnaval, folclore e cangaço, bem como orçamentos baixos, as chamadas "chanchadas" moldaram um perfil do cinema brasileiro para o público, sendo frequentemente fracassos entre a crítica mas sucesso entre os espectadores que lotavam as salas.


As tentativas fracassadas de industrialização da sétima arte no país tomaram outros rumos com o surgimento do Cinema Novo. Dessa vez, a inspiração deixava de ser em Hollywood e passava a beber os filmes japoneses, italianos e franceses que buscaram expor a dureza da vida real. Dessa forma, as produções brasileiras escancaravam o perfil de "Terceiro Mundo" do país. Os filmes do Cinema Novo, vistos como filmes "marginais" possuem um caráter político e questionador, que vai contra as normas da época, ilustrando os conflitos sociais existentes no país; a busca por uma identidade brasileira. José Mojica Marins surge com seus filmes de terror ao criar o profano Zé do Caixão; Glauber Rocha, Ruy Guerra, Nelson Pereira dos Santos e outros passam a usar a ideia de um país de poucos recursos para criar uma estética própria. Com a ditadura militar em voga, essa forma de cinema sofre censuras, e os cineastas precisam se tornar criativos ao expor suas críticas e metáforas, afim de terem seus filmes aprovados. O sucesso que esses filmes falharam em conseguir com o grande público é compensado com a aclamação e influência que o movimento gerou: Martin Scorsese, por exemplo, até hoje menciona as obras de Glauber como "poderosas, provocadoras e inspiradoras", sendo referenciadas pelo mesmo como influências em sua carreira.


Foi com a criação da Embrafilme durante o governo militar que o Estado começou a financiar diretamente a produção. Entretanto, a escolha de filmes feitos é realizada de acordo com os interesses dos governantes. Paralelo a isso, nascia no Brasil a chamada “pornochanchada”: comédias eróticas, muitas vezes parodiando obras estrangeiras. Nos anos 80, com a enorme crise e dívida externa, falta dinheiro para produzir e consumir filmes, e a indústria entra em colapso. Cada vez menos filmes passam a ser produzidos e na Era Collor, a Embrafilme é desfeita.


A retomada do Cinema Brasileiro começa a se dar a partir dos anos 90, com filmes como “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”. É criada a Globo Filmes e, mesmo com a falta de incentivo e de público, os primeiros passos para a reconstrução da sétima arte no país são tomados. Em 1997 é lançado “Central do Brasil” de Walter Salles, que relançou o Brasil ao mercado de exibição audiovisual mundial, gerando até indicações ao Oscar. O mesmo iria acontecer com “Cidade de Deus” lançado em 2002. O sucesso de público e crítica desses filmes foi o “gás” necessário para impulsionar as novas produções audiovisuais no país que, desde então, passaram a se tornar cada vez mais experimentais.


É notável que comédias com astros famosos ainda sejam a principal atração de consumidores, enquanto outros filmes possuem mais dificuldade em entrar no circuito exibidor. Entretanto, obras dramáticas e independentes, fugindo do monopólio produzido na região Sudeste, passam a ganhar notoriedade em festivais internacionais. Filmes como “Que horas ela volta?”, “Bacurau”, “As Boas Maneiras”, “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” apresentam outros aspectos do país que pouco haviam sido retratados em tela. Produções nordestinas começam a ganhar maior notoriedade e gêneros como o terror ascendem para ilustrar as mazelas e dificuldades do povo brasileiro. Os serviços de streaming como a Netflix também, passam a apostar cada vez mais em conteúdo nacional, com séries como “3%” e “Coisa Mais Linda”, que ressignificam símbolos e histórias tipicamente brasileiras afim de atingirem uma variedade de públicos.


E em 2020, novamente um filme brasileiro foi indicado ao Oscar. Com “Democracia em Vertigem” concorrendo ao prêmio de melhor documentário, Petra Costa faz um relato intimista sobre a derrocada da democracia no país e a ameaça às políticas culturais do país. É notável que, na história do Cinema Brasileiro, a luta tenha sido uma constante: seja com a censura ou com a falta de recursos. Essas dificuldades, no entanto, impulsionou uma onda de criatividade e ousadia no cinema independente que perdura até hoje, onde as mesmas dificuldades de décadas atrás podem ser encontradas. Ainda existe resistência do público consumidor ao caráter “reflexivo” destes filmes: não a toa é comum ouvir que o “cinema brasileiro não presta”. Existe espaço para mudança, no entanto. E em 2019, dois dos maiores sucessos no país foram as obras nacionais “Bacurau” e “Minha Mãe é uma Peça 3”: esta última, tendo desbancado o último capítulo da franquia “Star Wars” na bilheteria.


É urgente, portanto, a necessidade de apoiar e conferir a produção nacional: dar difusão e espaço para discuti-la. É um meio que cria diversos empregos mas também, uma forma de difundir ideias, opiniões e gerar reflexões. O cinema é um elemento que transforma a realidade pois permite que pensemos a respeito dela.

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