Cinema é planejamento


A professora Luciana Bezerra apresenta a Análise Técnica e Ordem do Dia aos estudantes

Fazer cinema é uma grande diversão do planejamento. Não basta ter uma ideia e tentar executá-la: é necessário antes, pensar muito nas necessidades que o filme possui. Tanto de equipe, como orçamento e cronograma, a ideia é controlar ao máximo possível o decorrer das filmagens. Muitas vezes um cenário é alugado, ou então um ator não tem disponibilidade total para gravar: por isso, será necessário planejar e marcar os melhores horários, e também, estar atento ao tempo passando quando a filmagem ocorre. O cinema em si, é um grande planejamento que visa trazer a imaginação do que foi pensado e materializá-la.


No dia 31 de agosto, a aula de Direção Audiovisual (DAV), contou com a professora Luciana Bezerra. Diretora do episódio “Acende a Luz”, um dos curtas que compõem o longa “Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos”, produzido por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães. Premiada também pelo seu roteiro do curta “Mina de Fé”, pela Riofilme, que ganhou o prêmio de melhor curta no 37º Festival de Brasília. Com sua experiência como atriz, diretora, roteirista e figurinista, Luciana aprofundou a aula na ideia de remover excessos desnecessários que não acrescentam muito ao filme, bem como de desconstruir as cenas e sequências. Chamamos de cena, tudo aquilo que acontece no mesmo lugar e no mesmo tempo, em um roteiro. A sequência, é um agrupamento de cenas. Fazendo essa diferenciação, os realizadores tiveram em mãos o desafio de escolher uma cena ou sequência de seus roteiros e elaborarem um dos mais importantes documentos numa filmagem: a Análise Técnica.


Cada grupo contou com apoio de um funcionário ou bolsista para Assistente de Direção

Para isso, cada grupo recebeu um assistente de direção, na forma de um jovem bolsista do Ponto Cine pelo IFRJ, ou de um funcionário de lá. Juntos, começaram a elaborar o documento. A Análise Técnica nada mais é, do que a decomposição de uma cena em diversos fatores: quantos minutos tem a cena (em um roteiro, o comum é que uma página seja equivalente a um minuto, mas isso pode variar), quantos e quais figurantes, qual o ambiente, o que acontece na cena, quais os adereços e atores. Esses e outros elementos compõem o documento, que serve como uma organização de tudo que vai ser necessário no dia previsto de filmagem, já que a Análise Técnica é feita muito antes das filmagens acontecerem. Nada na Análise Técnica está lá à toa, e tudo serve de auxílio para a equipe atingir o melhor resultado planejado.


Já a aula de Interpretação para Produções Audiovisuais (IPA), ministrada pelo professor Gilson de Barros, coordenador do curso, foi focada no estudo individual, a partir dos atores de cada filme, em cima de seus personagens. Ou seja, cada grupo chegou em um horário diferente. Isso foi feito para que cada um tivesse seu tempo de exercitar, analisar e discutir a visão que tinham dos roteiros e personagens.


Existem cinco filmes sendo simultaneamente produzidos, entre os cursos de IPA e DAV: “A Promessa”, situado na véspera de Cosme e Damião, lida com o conflito de três irmãos, buscando cumprir uma promessa feita à mãe falecida; “Abeni” trata de uma jovem dividida entre abraçar sua herança no Candomblé ou renunciá-la. Em “Du Passinho”, o jovem Elias, cria de favela por um pastor e uma missionária, sonha em se tornar o dançarino oficial do baile funk, posto ocupado pelo seu melhor amigo, por quem tem sentimentos. O filme “Eu Te Mato” aborda o processo judicial aberto por Marta contra seu ex-marido, violento e possessivo, dando início a um terror de delírios e alucinações. Por fim, “Sabotagem” vê um jovem engenheiro, que decide seguir seu sonho como roteirista, contrariado pelo desejo de seu namorado e de seu pai. Mas quando a personagem de seu roteiro ganha vida, um sopro de inspiração o incentiva a dar uma nova chance ao seu sonho.


Exercício de Interpretação do filme "Abeni"


Com isso em mente, o professor repetiu um exercício já praticado antes: cada ator, encarnando seu personagem, iria interagir com o outro, podendo dizer apenas “oi”, “tudo bem?” e “tchau”. No entanto, dizer que o exercício foi uma repetição, seria desmerecer a evolução dos jovens atores. Utilizando de pausas estipuladas pelo professor e por eles mesmos, o estímulo à atividade permitiu que eles próprios incluíssem camadas em seus personagens. Deixassem mais profundos, dessem mais sutileza. Isso ficou mais claro, depois que eles assistiram seu desempenho, em vídeo. Movimentos nos olhos ou rápidos gestos com a mão: no teatro, passa batido. No cinema, dá significado à cena e ao personagem.


O bom ator, não pode generalizar seu personagem, ou vê-lo com preconceito. Ele precisa buscar em seu íntimo e tentar compreendê-lo enquanto pessoa. “O que o levou a chegar nesse ponto?”. São questionamentos como esses que os ajudam a dar uma dimensão ao texto, que transparece na tela quando o espectador assiste. Mesmo que o ator não concorde com seu personagem, entender suas crenças e modos, não só julgá-lo, é o que permite o ator a sair do óbvio e esperado.


É importante frisar que, o roteiro também, mesmo sendo a chave que desencadeia toda a obra do filme, possui suas ingenuidades. Nem sempre o roteirista conhece tão a fundo o assunto que está falando, como o ator por exemplo. O diretor e roteirista buscam compreender a história que elaboraram, e isso é algo que se revela aos poucos, mas que está em constante transformação. Sempre mudando: ter referências é importante, mas o desapego e a capacidade de adaptar as necessidades do filme, também é o que permite que o mesmo seja feito. Atores, roteiristas, diretores: todos estão em um trabalho conjunto para analisar as superficialidades do roteiro, e compreender o que precisa dessa mudança; de nova carga. No fim das contas, fazer cinema é uma grande diversão do planejamento conjunto.


Assistir aos exercícios na televisão, ajudou os atores a perceberem sutilezas que passaram despercebidas

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